amigo, não tenho perguntas para fazer-te – friend, I have no questions for you.

•February 2, 2010 • Leave a Comment

amigo, não tenho perguntas para fazer-te. quantas

pessoas entendem aquilo que não entendo? quem

descobriu o segredo mais inútil?

amigo, não tenho perguntas para fazer-te. basta-me

olhar. passaram anos, poderiam ter passado mais

anos ainda. poderiam passar séculos.

entendo o teu rosto. isso basta-me quando te vejo.

para mim, serás sempre o príncipe, a criança que

me mostrou as árvores.

o tempo não passou, amigo, agora, ao chegares,

olho para ti. o teu rosto é igual. agora, ao chegares,

sei que nunca partiste.

José Luis Peixoto

Message in a bottle-Mensagem numa garrafa

•February 2, 2010 • Leave a Comment

Just a castaway
an island lost at sea
another lonely day
no-one here but me
more loneliness
than any man could bear
rescue me before I fall into despair

I’ll send an SOS to the world
I’ll send an SOS to the world
I hope that someone gets my
I hope that someone gets my
I hope that someone gets my
message in a bottle

A year has passed since I wrote my note
but I should have known this right from the start
only hope can keep me together
love can mend your life
but love can break your heart

I’ll send an SOS to the world
I’ll send an SOS to the world
I hope that someone gets my
I hope that someone gets my
I hope that someone gets my
message in a bottle

Walked out this morning
don’t believe what I saw
a hundred billion bottles
washed up on the shore
seems I’m not alone in being alone
a hundred billion castaways
looking for a home

I’ll send an SOS to the world
I’ll send an SOS to the world
I hope that someone gets my
I hope that someone gets my
I hope that someone gets my
message in a bottle

Sending out an SOS
sending out an SOS

Sting

Poética-Poetic

•February 2, 2010 • Leave a Comment

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Manuel Bandeira

Ponto de orvalho-Dewpoint

•February 2, 2010 • Leave a Comment

Nem se chega a saber como
um inusitado sorriso,
um volver de olhos doentes,
um caminhar indeciso
e cego por entre as gentes,
chamam a si, aglutinam,
essa dor que anda suspensa
( e é dor de toda a maneira)
como o vapor se condensa
sobre núcleos de poeira.
É essa angústia latente
boiando no ar parado
como um trovão iminente,
que em muda voz se pressente
num simples olhar trocado.
Essa angústia universal,
esse humano desespero,
revela-se num sinal,
numa ferida natural
que rói com lento exagero.
Não deita sangue nem pus,
não se mede nem se pesa,
não diz, não chora, não reza,
não se explica nem traduz.
A gente chega, respira,
olha, sorri, cumprimenta,
fala do frio que apoquenta
ou do suor que transpira,
e pronto, sem saber como,
inútil, seco, vazio,
cai na penumbra do rio,
emerge, bóia, soçobra,
fácil e desinteressado
como um papel que se dobra
por onde já foi dobrado.

António Gedeão

Música, levai-me – Music, take me

•February 2, 2010 • 1 Comment


Música, levai-me:

Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?

Eugénio de Andrade

Pó-Dust

•January 20, 2010 • Leave a Comment

Nas estantes os livros ficam
(até se dispersarem ou desfazerem)
enquanto tudo
passa. O pó acumula-se
e depois de limpo
torna a acumular-se
no cimo das lombadas.
Quando a cidade está suja
(obras, carros, poeiras)
o pó é mais negro e por vezes
espesso. Os livros ficam,
valem mais que tudo,
mas apesar do amor
(amor das coisas mudas
que sussurram)
e do cuidado doméstico
fica sempre, em baixo,
do lado oposto à lombada,
uma pequena marca negra
do pó nas páginas.
A marca faz parte dos livros.
Estão marcados. Nós também.

Pedro Mexia

Nunca a alheia vontade, inda que grata-Never the will of the others, though grateful

•January 20, 2010 • Leave a Comment


Nunca a alheia vontade, inda que grata,

Cumpras por própria. Manda no que fazes,
Nem de ti mesmo servo.
Niguém te dá quem és. Nada te mude.
Teu íntimo destino involuntário
Cumpre alto. Sê teu filho.

Fernando Pessoa

Without you-Sem ti

•January 19, 2010 • 1 Comment


Just when I’m ready to throw in my hand
Just when the best things in life are gone
I look into your eyes

There’s no smoke without fire
You’re exactly who I want to be with
Without you
What would I do

And when I’m willing to call it a day
Just when I won’t take another chance
I hold your hand
There’s no smoke without fire

Woman I love you
Without you
What would I do

David Bowie

Perguntas de um Operário Letrado-Questions from a literate worker

•January 19, 2010 • 1 Comment


Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

Berthold Bretch

Se alguma vez, nos salões de um palacio-If ever, in the halls of a palace

•January 19, 2010 • Leave a Comment


Se alguma vez, nos salões de um palacio, sobre a erva de uma vala ou na solidão morna do vosso quarto, acordardes de uma embriaguez evanescente ou desaparecida, perguntai ao vento, a vaga, ao passaro, ao relogio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento a vaga, a estrela, o passaro, o relogio, vos responderão: São horas de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar! Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas embriagai-vos! Deslumbrai-vos!

Baudelaire