Destino – Destiny

•January 27, 2012 • Leave a Comment

Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta «Florece!»
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem…
Ai!, não mo disse ninguém.

Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino .
Vim cumprir o meu destino…
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.

Almeida Garrett

Mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar – Even if you do not know neither the month nor the place

•January 27, 2012 • Leave a Comment

Mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar
caminha para o mar pelo verão

Ruy Belo

Ao rosto vulgar dos dias – The ordinary face of day to day

•January 27, 2012 • Leave a Comment

Monstros e homens lado a lado,

Não à margem, mas na própria vida.

Absurdos monstros que circulam

Quase honestamente.

Homens atormentados, divididos, fracos.

Homens fortes, unidos, temperados.

Ao rosto vulgar dos dias,

A vida cada vez mais corrente,

As imagens regressam já experimentadas,

Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.

Imaginar, primeiro, é ver.

Imaginar é conhecer, portanto agir.

Alexandre O’Neill

 

Há quem sonhe com coisas que aconteceram – Some people dream with things that happened

•January 26, 2012 • 2 Comments

“Há quem sonhe com coisas que aconteceram, e explicam porquê. Eu sonho com coisas que nunca acontecerão e pergunto: porque não?”

 

Saudade

•January 26, 2012 • 1 Comment

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
sói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono

Mia Couto

Enquanto houver uns olhos que reflectem – While there are eyes that reflect

•January 25, 2012 • 1 Comment

Enquanto houver uns olhos que reflectem
outros olhos que os fitam,
enquanto a boca responda a suspirar
aos lábios que suspiram,
enquanto sentir-se possam ao beijar-se
duas almas confundidas,
enquanto exista uma mulher formosa,
haverá poesia!

Gustavo Adolfo Bécquer

Água – Water

•January 25, 2012 • 2 Comments

O líquido delgado e transparente
Com que o barro amassou o Autor sob’rano,
Da insigne construção do corpo humano,
Que temperas do home o fogo ardente!

Quando a chama se ateia em continente
Tu corres a sustar o nosso dano:
Tu desabafo és do mal tirano,
Que ataca o coração, soltando a enchente.

Quando tu pelos poros és filtrada,
Água que o fogo aquece, a calma fica
Da máquina acendida, refrescada.

Porém, quando o suor gela na bica,
Quando o frio te torna condensada,
Nossa queda final se verifica.

Francisco Bingre

Alentejo

•January 25, 2012 • Leave a Comment

 

 

Agonia

dos lentos inquietos

amarelos,

solidão do vermelho

sufocado,

por fim o negro,

fundo espesso,

como no Alentejo

o branco obstinado.

Eugénio de Andrade



					
				

Um dia de Cão – A Dog Day

•January 24, 2012 • 2 Comments

Apanhar a bola-la
Estender a pata-ta
Sempre em equilíbrio-brio
Sempre em exercício-cio
Corre, cão de raça
Corre, cão de caça
Corre, cão chacal
Sim, senhor
Cão policial
Sempre estou
Às ordens, sim, senhor

Bobby, Lulu,
Lulu, Bobby
Snoopy, Rocky
Rex, Rintintin

Lealdade eterna-na
Não fazer baderna-na
Entrar na caserna-na
O rabo entre as pernas-nas
Volta, cão de raça
Volta, cão de caça
Volta, cão chacal
Sim, senhor
Cão policial
Sempre estou
Às ordens, sim, senhor

Bobby, Lulu
Lulu, Bobby
Snoopy, Rocky
Rex, Rintintin
Bobby, Lulu
Lulu, Bobby
Snoopy, Rocky
Estou às ordens
Sempre, sim, senhor

Fidelidade
À minha farda
Sempre na guarda
Do seu portão
Fidelidade
À minha fome
Sempre mordomo
E cada vez mais cão

Chico Buarque

Thursday’s child

•January 24, 2012 • 1 Comment

All of my life I’ve tried so hard
Doing my best with what I had
Nothing much happened all the same

Something about me stood apart
A whisper of hope that seemed to fail
Maybe I’m born right out of my time
Breaking my life in two

Throw me tomorrow
Now that I’ve really got a chance
Throw me tomorrow
Everything’s falling into place
Throw me tomorrow
Seeing my past to let it go
Throw me tomorrow
Only for you I don’t regret
That I was Thursday’s child

Monday Tuesday Wednesday born I was
Monday Tuesday Wednesday born I was
Thursday’s child

Sometimes I cried my heart to sleep
Shuffling days and lonesome nights
Sometimes my courage fell to my feet

Lucky old sun is in my sky
Nothing prepared me for your smile
Lighting the darkness of my soul
Innocence in your arms

Throw me tomorrow
Now that I’ve really got a chance
Throw me tomorrow
Everything’s falling into place
Throw me tomorrow
Seeing my past to let it go
Throw me tomorrow
Only for you I don’t regret
That I was Thursday’s child

David Bowie

Fire and Ice

•January 23, 2012 • 2 Comments

Some say the world will end in fire,

Some say in ice.

From what I’ve tasted of desire

I hold with those who favor fire.

But if it had to perish twice,

I think I know enough of hate

To say that for destruction ice

Is also great,

And would suffice.

Robert Frost

Eu Sou do Tamanho do que Vejo – I am of the size of what I see

•January 23, 2012 • 2 Comments

Da minha aldeia veio quanto da terra se pode ver no Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura…
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Alberto Caeiro

O maestro sacode a batuta – The conductor shook his baton

•January 23, 2012 • 2 Comments

O maestro sacode a batuta,
A lânguida e triste a música rompe …

Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal
Atirando-lhe com, uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo …

Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo…

Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde tornando-se jockey amarelo…
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos…)

Atiro-a de encontra à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal… E a música atira com bolas
À minha infância… E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos …

Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo…

E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância…

E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo…

Fernando Pessoa

Infância – Childhood

•January 20, 2012 • 1 Comment

Sonhos
enormes como cedros
que é preciso
trazer de longe
aos ombros
para achar
no inverno da memória
este rumor
de lume:
o teu perfume,
lenha
da melancolia.

Carlos De Oliveira

Os versos que te fiz – The verses that I made ​​to you

•January 20, 2012 • 2 Comments

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder…
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda…
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei…
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

Florbela Espanca

há-de flutuar uma cidade – There will be a floating city

•January 20, 2012 • 2 Comments

há-de flutuar uma cidade no crepúscolo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos… sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade

Al Berto

estou escondido na cor amarga do fim da tarde – I’m hiding in the bitter color of the evening

•January 20, 2012 • Leave a Comment

Estou escondido na cor amarga do

fim da tarde. sou castanho e verde no

campo onde um pássaro

caiu. sinto a terra e orgulho

por ter enlouquecido. produzo o corpo

por dentro e sou igual ao que

vejo. suspiro e levanto vento nas

folhas e frio e eco. peço às nuvens

para crescer. passe o sol por cima

dos meus olhos no momento em que o

outono segue à roda do meu tronco e, assim

que me sinta queimado, leve-me o

sol as cores e reste apenas o odor

intenso e o suave jeito dos ninhos ao

relento

Walter Hugo Mãe

O dia deu em chuvoso – The day became rainy

•January 19, 2012 • 1 Comment

O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.

Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.

Bem sei, a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.

Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efetivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.

Carinhos? Afetos? São memórias…
É preciso ser-se criança para os ter…
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.

Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer…
Quando foi isso? Não sei…
No azul da manhã…

O dia deu em chuvoso.

Álvaro Campos

Beleza – Beauty

•January 19, 2012 • 1 Comment

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço…
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.

Miguel Torga

Quase – Almost

•January 19, 2012 • 1 Comment

Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minhalma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo … e tudo errou…
- Ai a dor de ser – quase, dor sem fim…
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…

Momentos de alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…

Um pouco mais de sol – e fora brasa,
Um pouco mais de azul – e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir… Onde acoitar-me?…
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar…

Mário de Sá-Carneiro

Será possível o Caos? – Is it possible the Chaos?

•January 18, 2012 • 1 Comment

Às vezes penso na possibilidade do caos

Não porque deseje a sua forma

Mas porque seria uma porta para outras

…Formas.

Há sempre o medo que acompanha

Um qualquer ou simples caos emergente.

(Ideia retorcida que alimenta a gente!)

Mas Ele normalmente é bom e auspicioso.

Tão necessário nas nossas sociedades,

Atrasadas pelos seus objectivos,

Conhecidos, controlados, manipulados…

Suficientes para a eterna manutenção

De vidas entaladas na mediocridade

Do conhecido só porque se conhece.

Tudo parece uma questão de economia

(Vil engrenagem disforme e sedenta!)

Normalmente incompreensível para nós

Peões ao seu serviço, por um lado

Opositores à sua lógica, por outro…

Sem escapar à sua manipulação.

Então a revolta aparece, como acção

De quem acredita, vive e pressente

A Sua emergência… Do Caos.

E em forma de mudança.

Mas o verdadeiro Caos nasce livre.

Fúteis são as tentativas de assim não ser.

Ainda assim sinto que existe motivação,

Para o desejar, cativar, impulsionar

No fundo uma medida de apoio

Ao inevitável…

Uma simpatia, oferenda simbólica,

Acção catalisadora que articula

Moléculas descontentes, injustiçadas

E que só a muito custo se juntarão…

Nessa linda possibilidade, que é o Caos.

Helena Menezes

Em ti o meu olhar fez-se alvorada – In you my eyes became dawn

•January 18, 2012 • 2 Comments

Em ti o meu olhar fez-se alvorada,
E a minha voz fez-se gorgeio de ninho,
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura do linho

Florbela Espanca

O Pai – The Father

•January 16, 2012 • Leave a Comment

Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.

Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.

Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.

Depois… Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.

Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.

O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar… E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.

Escutarei de noite as tuas palavras:
… menino, meu menino…

E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.

Pablo Neruda

Já o Inverno, expremendo as cãs nevosas

•January 16, 2012 • 2 Comments

á o Inverno, expremendo as cãs nevosas,
Geme, de horrendas nuvens carregado;
Luz o aéreo fuzil, e o mar inchado
Investe ao pólo em serras escumosas;

Ó benignas manhãs!, tardes saudosas,
Em que folga o pastor, medrando o gado,
Em que brincam no ervoso e fértil prado
Ninfas e Amores, Zéfiros e Rosas!

Voltai, retrocedei, formosos dias:
Ou antes vem, vem tu, doce beleza
Que noutros campos mil prazeres crias;

E ao ver-te sentirá minha alma acesa
Os perfumes, o encanto, as alegrias,
Da estação que remoça a natureza.

Bocage

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio – I call you because everything still in the beginning

•January 16, 2012 • 1 Comment

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em primavera feroz pricipitado.

Sophia de Mello Breyner Andresen


o tempo, subitamente solto – The time, suddenly released

•November 5, 2011 • 3 Comments

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias, 
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo, 
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer. 
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar, 
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua 
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto. 
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores 
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde. 
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

José luis peixoto

Auto-retrato – Self-portrait

•November 5, 2011 • Leave a Comment

Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
marciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos uma folha de hortelã
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.

Ary dos Santos

Amo-te sempre e discretamente mais – I love you always and slightly more

•November 5, 2011 • Leave a Comment


Quando acordo vejo-o sempre calmo,

Com disposição alegre, por vezes radiante.

Ele é assim, feliz a cada momento que passa.

De manhã contagia-me consigo mesmo.

Contenta-me com o descomplicado

Em estar com Ele, num mundo simples

De pequeno-almoço natural mas vigoroso.

O meu amor por Ele consome a energia

Da manhã, do dia e horas que passam

E a cada minuto fortalece-se discreto,

Integral e consistente, mas maleável…

Quando durmo sinto a sua evolução

Enquanto sonho com chá de pauzinhos,

Ovos estrelados e queijo com pão…

Helena Menezes

Explicação da Eternidade – Eternity Explanation

•November 5, 2011 • Leave a Comment

devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

José Luis Peixoto

As árvores como vento implume

•November 5, 2011 • Leave a Comment

as árvores como

vento implume ou

lápide de um antigo

ser alado

deus ou voz extensa e eu, no

sopé da montanha somos

espantalhos no terreno da alma

Valter hugo Mãe

Numa casa portuguesa – In a Portuguese house

•September 22, 2011 • Leave a Comment

Numa casa portuguesa fica bem
pão e vinho sobre a mesa.
Quando à porta humildemente bate alguém,
senta-se à mesa coa gente.
Fica bem essa fraqueza, fica bem,
que o povo nunca a desmente.
A alegria da pobreza
está nesta grande riqueza
de dar, e ficar contente.

Quatro paredes caiadas,
um cheirinho a alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera…
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

No conforto pobrezinho do meu lar,
há fartura de carinho.
A cortina da janela e o luar,
mais o sol que gosta dela…
Basta pouco, poucochinho pra alegrar
uma existéncia singela…
É só amor, pão e vinho
e um caldo verde, verdinho
a fumegar na tijela.

Quatro paredes caiadas,
um cheirinho a alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera…
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

Reinaldo Ferreira

Quando era criança – When I was a kid

•September 22, 2011 • 1 Comment

Quando era criança
Vivi, sem saber,
Só para hoje ter
Aquela lembrança.

E hoje que sinto
Aquilo que fui.
Minha vida flui,
Feita do que minto.

Mas nesta prisão,
Livro único, leio
O sorriso alheio
De quem fui então.

Fernando Pessoa

A chuva chove – The Rain rain

•September 22, 2011 • Leave a Comment


A chuva chove mansamente… como um sono
Que tranqüilize, pacifique, resserene…
A chuva chove mansamente… Que abandono!
A chuva é a música de um poema de Verlaine…

E vem-me o sonho de uma véspera solene,
Em certo paço, já sem data e já sem dono…
Véspera triste como a noite, que envenene

… Num velho paço, muito longe, em terra estranha,
Com muita névoa pelos ombros da montanha…
Paço de imensos corredores espectrais,

Onde murmurem, velhos órgãos, árias mortas,
Enquanto o vento, estrepitando pelas portas,
Revira in-fólios, cancioneiros e missais…

Cecília Meireles

Solidão – Solitude

•September 22, 2011 • Leave a Comment

Estás todo em ti, mar, e, todavia,
como sem ti estás, que solitário,
que distante, sempre, de ti mesmo!

Aberto em mil feridas, cada instante,
qual minha fronte,
tuas ondas, como os meus pensamentos,
vão e vêm, vão e vêm,
beijando-se, afastando-se,
num eterno conhecer-se,
mar, e desconhecer-se.

És tu e não o sabes,
pulsa-te o coração e não o sente…
Que plenitude de solidão, mar solitário!

Juan Ramón Jiménez

Perdida na Praia – Lost in the beach

•September 22, 2011 • Leave a Comment

 

 

Será que a água do mar

Bate com a intensidade

Dos meus líquidos corporais?

Ou será que bate contra

A minha rocha endurecida

Pelo tempo que custa a passar?

Andará uma concha partida

Mais ou menos fragmentada

Que o meu interior sentido?

Ou andará o cacto da duna,

Tão espinhoso como sou eu

Em tempos de verão chuvoso?

Do tipo leve mas penetrante…

Refresco apenas para uma mente

Tão aquecida como ensombrada,

Sim, tentadoramente negra

Em tempos felizes… idos, agora.

Pergunto incansável, pergunto…

Nesta paisagem de ócio limitado,

E não necessariamente sazonal,

Será a falésia como o precipício

Da vida constante?

E opções a que obriga?

Andarão talvez as algas deslizantes

Como os projectos da minha vida?

Será que o vento desconexo

Abana como os humores do meu dia?

Ou poderá a areia aquecida

Amolecer as minhas vontades eternas?

Não sei! Não sei, não sei…

Queria palmilhar toda a beira do mar,

Se fosse possível…

Numa indagação persistente,

Por qualquer revelação ou iluminação…

Explicação qualquer, pouco satisfatória…

Assim, morro sempre mais um bocadinho,

Sem respostas, nem motivação,

Perdida numa praia qualquer.

Helena Menezes


Algumas Reflexões Sobre a Mulher – Some Thoughts About the Women

•September 17, 2011 • 2 Comments

Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva,
arrastando
os seus mantos na poeira das estrelas.

Animais sonâmbulos,
dormem nos rios, na raiz do pão.

Na vulva sombria
é onde fazem o lume:
ali têm casa.
Em segredo, escondem
o latir lancinante dos seus cães.

Nos olhos, o relâmpago
negro do frio.

Longamente bebem
o silencio
nas próprias mãos.

O olhar
desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.

Sobre si se debruçam
a escutar
os passos do crepúsculo.

Despem-se ao espelho
para entrarem
nas águas da sombra.

É quando dançam que todos os caminhos
levam ao mar.

São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar,
o branco da rosa.

Quando o galo canta
Desprendem-se
para serem orvalho.

Eugénio de Andrade

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros – Your eyes so black, so beautiful, so pure

•September 17, 2011 • 2 Comments

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir,
Estrelas incertas, que as águas dormentes
Do mar vão ferir;

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Têm meiga expressão,
Mais doce que a brisa, — mais doce que o nauta
De noite cantando, — mais doce que a frauta
Quebrando a solidão,

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir,
São meigos infantes, gentis, engraçados
Brincando a sorrir.

São meigos infantes, brincando, saltando
Em jogo infantil,
Inquietos, travessos; — causando tormento,
Com beijos nos pagam a dor de um momento,
Com modo gentil.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Às vezes luzindo, serenos, tranquilos,
Às vezes vulcão!

Às vezes, oh! sim, derramam tão fraco,
Tão frouxo brilhar,
Que a mim me parece que o ar lhes falece,
E os olhos tão meigos, que o pranto humedece
Me fazem chorar.

Assim lindo infante, que dorme tranquilo,
Desperta a chorar;
E mudo e sisudo, cismando mil coisas,
Não pensa — a pensar.

Nas almas tão puras da virgem, do infante,
Às vezes do céu
Cai doce harmonia duma Harpa celeste,
Um vago desejo; e a mente se veste
De pranto co’um véu.

Quer sejam saudades, quer sejam desejos
Da pátria melhor;
Eu amo seus olhos que choram em causa
Um pranto sem dor.

Eu amo seus olhos tão negros, tão puros,
De vivo fulgor;
Seus olhos que exprimem tão doce harmonia,
Que falam de amores com tanta poesia,
Com tanto pudor.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Eu amo esses olhos que falam de amores
Com tanta paixão.

Gonçalves Dias

Por um olhar, um mundo – For a look, a world

•September 17, 2011 • 1 Comment

Por um olhar, um mundo;
por um sorriso, um céu;
por um beijo…não sei
que te daria eu.

Gustavo Adolfo Bécquer

Árvores Tristes – Sad trees

•September 17, 2011 • Leave a Comment

Gosto de vê-las à tardinha, envoltas
Numa suave e mística tristeza,
Olhando os rolos das espumas soltas
Que encrespam o lençol da correnteza.

Tristonhas plantas! Árvores sombrias!
Como se as torturasse estranha mágoa,
E as compungissem fundas nostalgias,
— Procuram consolar-se à beira d’água.

Oh! vós que amais os campos, nunca as vistes?
— Desconsoladas, trêmulas, chorosas,
Pelas barrancas dos arroios tristes
Debruçam as ramagens silenciosas…

Que importa o sol, que importa a chuva e o vento,
Se sempre as mesmas ânsias as consomem?
Talvez — quem sabe? — nesse desalento,
Palpite e sofra o coração dum homem!

Talvez nessas folhagens, nesses ramos,
Torturados de angústia e desconforto,
— Sem que a vejamos, sem que a compreendamos,
Soluce a alma de algum poeta morto.

Ai, não turbeis a misteriosa mágoa,
A imensa nostalgia em que se abismam;
Deixai-as em silêncio, à beira dágua,
Essas tristonhas árvores que cismam…

Paulo Setúbal

O primeiro gomo de tangerina – The first slice of tangerine

•September 17, 2011 • 3 Comments

Todos vieram
ver a menina
ao primeiro gomo de tangerina
menina atenta
não experimenta
sem primeiro
saber do cheiro
o sabor dos lábios
gestos sábios

Fruta esquisita
menina aflita
ao primeiro gomo de tangerina
amarga e doce
como se fosse
essa hora
em que chora
e depois dobra o riso
e assim faz seu juízo

Sumo na vida
é o que eu te desejo
um beijo um beijo

Ah, que se lembre
sempre a menina
do primeiro gomo de tangerina
p´la vida dentro
é esse o centro
da parcela da vitamina
que a faz crescer sempre menina

A terra é grande
é pequenina
do tamanho apenas da tangerina
quem mata e morra
nunca percorre
os caminhos do que há de melhor
nesse sumo
a vida, gomo a gomo

Sumo na vida
é o que eu te desejo
rumo na vida
um beijo
um beijo

Sérgio Godinho

Eram de longe – They were from far away

•September 17, 2011 • Leave a Comment

Eram de longe.
Do mar traziam
o que é do mar: doçura
e ardor nos olhos fatigados.

Eugénio de Andrade

Diálogo – Dialogue

•September 10, 2011 • 1 Comment

Levarás
pela mão
o menino
até ao rio. Dir-lhe-ás
que a água é cega
e surda. Muda,
não. Que o digam
os peixes, que em silêncio
com ela sustentam
seu diálogo
líquido, de líquidas
sílabas
de submersas
vogais.

Albano Martins

Amor Místico – Mystic love

•September 10, 2011 • 1 Comment

Quando a minha alma nasceu
Para onde olhou primeiro,
E viu tudo um nevoeiro,
Foi lá cima para o céu…
Que a alma nunca lhe passa
De ideia a fonte da graça!

Em toda a ânsia de luz,
Em toda a ânsia de gozo,
Sempre aquele olhar ansioso
Nesse ideal de Jesus…
Nesse bem que não se exprime…
Êxtase de amor sublime!

Olhava da solidão,
Onde se sentia presa,
Com a natural tristeza
Dos ferros de uma prisão…
À espera sempre da hora
Que lhe raiasse a aurora!

Bem a chamavam de cá
Sempre os cuidados do dia;
Ela, que nunca os ouvia,
Olhava, mas para lá…
Donde ela mesmo viera,
Donde todo o bem se espera!

Um dia (nem eu sei qual,
Que em suma foi isso há tanto!)
Vê com uns olhos de espanto
Romper-se a névoa geral;
E como um sol recortado
Nesse mar enevoado…

E dentro desse clarão,
Como em círculo de prata,
Que imagem se lhe retrata,
Fosse verdade ou visão?
A mesma que ela apertava
Nos braços quando sonhava.

Mas a visão, em lugar
De vir cair-lhe nos braços,
Voa por esses espaços
Até já mal se avistar…
Indo assim a luz minguando
E indo-se a névoa cerrando!

E hoje a minha alma, não sei
Se nessa névoa cerrada
Vê tal visão embrulhada
Ou nem já vestígios vê…
Sei que se ainda me anima,
É de olhos fitos lá cima.

João de Deus

Realidades? – Realities?

•September 10, 2011 • Leave a Comment

Um dia acordei decidida.

A adoptar uma realidade feita, à minha medida,

Com tempo estagnado e espaço controlado.

Não queria correr nem ficar perdida.

Mas estar, sentir, ser… Viver!

Sem hipótese para a racionalização

(Vício constante ao real obrigatório e inflexível…).

Adoptei-a de facto e sem custo excessivo.

Espantei-me sempre com a sua confirmação,

A da minha criação tão necessária.

Enquanto Lá, vivi intensamente…

Lá, estive naturalmente e feliz.

Impedi todo e qualquer pensamento objectivo.

Busquei sempre a extinção de qualquer culpa,

(Qual tortura normalmente inesgotável!…)

E consegui!

Depois, outro dia (de Lá) quis sair.

Dei por mim levemente cansada,

Em lugar familiar, de onde não tinha talvez saído,

Sentia as vivências à flor da pele,

Denunciadoras de uma felicidade intencional,

Necessária e sensivelmente construída…

Onde é que eu tinha estado? Ou estava ainda…?

(Tinha dúvidas.)

Pensei no tempo estagnado, espaço controlado,

Desenhados unicamente por mim, para mim…

Ri insolente!.. Intensamente, irreverentemente…

Com a intensidade de uma alma livre,

Tal como sempre quis.

Depois… um pensar enegrecido dominou!…

Sofri… num formato superficial…

Durante um tempo…

(Curto para o que o real exige)

Não me importei, mais uma vez.

Pressenti logo que (a) uma realidade chegava…

Pensei, racionalizei, como antigamente.

E finalmente, quando quis voltar,

Sem saber para onde,

Já não consegui.

Helena Menezes

Ilha – Island

•September 10, 2011 • 1 Comment

Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias.

David Mourão-Ferreira

Teus Olhos – Your eyes

•September 10, 2011 • 1 Comment

Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,
silêncio que fala,
tempestades sem vento, mar sem ondas,
pássaros presos, douradas feras adormecidas,
topázios ímpios como a verdade,
outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro
duma árvore e são pássaros todas as folhas,
praia que a manhã encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo,
mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar ao meio-dia,
universo que estremece,
paisagem solitária.

Octavio Paz

Ruínas – Ruins

•September 10, 2011 • 1 Comment

Se é sempre Outono o rir das Primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair…
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras,
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino das Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais alto do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!… Deixa-os tombar… Deixa-os tombar.

Florbela Espanca

E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar – And I like her so much that I don’t know how to want her

•September 10, 2011 • 1 Comment


E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Fernando Pessoa

Pequena Cantiga à Mulher – Little Ditty for Women

•September 10, 2011 • Leave a Comment

Onde uma tem
A cantiga
A outra tem a firmeza

Tomba o cabelo
Nos ombros

O suor pela
Barriga

Onde uma tem
A riqueza
A outra tem
A fadiga

Tapa a nudez
Com as mãos

Procura o pão
Na gaveta

Onde uma tem
O vestígio
Tem a outra
A pele seca

Enquanto desliza
O fato
Pega a outra na
Enxada

Enquanto dorme
Na cama
A outra arranja-lhe
A casa

Maria Teresa Horta

Ainda que Mal – Although hardly

•September 10, 2011 • Leave a Comment

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

Carlos Drummond de Andrade

 
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